Em uma ensolarada tarde de quarta-feira, ao admirar a
natureza semivirgem que adorna o quintal de minha casa, sou guiado pela
tristeza a colocar palavras soltas no papel. Palavras soltas, sem muita força,
raquíticas. Um grito ameno dum homem enfraquecido pela dor. Assim, o sol
brilha. E a força é renovada através da escrita.
Propus a não fazer o de sempre, lembrado que esse
“sempre” não é o sempre usual. Refere-se ao “sempre” de dois dias atrás, quando
então retomei as atividades que havia parado há um mês. Como disse, hoje parei
de fazer o de sempre, o sempre que já havia parado antes. Parece que há algum
problema com esse “sempre”, já que está difícil de ele se tornar o de sempre.
Um pouco depois de aceitar que os sonhos eram apenas
sonhos e me convencer, a contra gosto, de que, na verdade, acabara de acordar,
decidi que o dia seria diferente. Sentia as pernas cansadas da atividade física
dos últimos dias. Havia extrapolado meus conhecidos limites e senti na pele a
reação contrária às forças impostas contra os pedais da bicicleta. Propus-me,
ainda na cama, a uma série de atividades. Decidi fazer muito. No fim das
contas, o que realmente faço neste instante?
-- Aquilo que havia me disposto?
Não.
-- O que faço então?
Escrevo.
Sento ao lado das folhagens. A borboleta voa. Segue
despreocupada se viverá apenas poucos dias. Ela voa. Refazendo o mesmo caminho
pelas mesmas folhagens. Segue a voar. Procurando algo? Procurando alguém? Não,
esse sou eu. Só que eu não voo. Pedalo. Preocupado tanto com a vida que me
esqueço de viver, de voar, de me libertar.
Ontem me indagava donde estariam meus amigos. Senti
falta deles. Aí percebi que se tive um amigo apenas foi muito. Onde estaria ele
agora? Pensei em lhe redigir uma carta. Não um e-mail, mas sim uma carta escrita
de próprio punho. Iria lhe pedir o endereço, selar e enviar pelo correios, à
moda Pré-Internet. Contar-lhe-ia tudo que passo, passei e pelo que quero
passar. Os trabalhos, as crenças, os votos para que ele continuasse em frente,
não desanimando das escolhas que fez.
Espere um
pouco. Isso não é o que quero para ele. É o que quero para mim.
Assim me vi
desejando muito mais ser animado que animar. Entretanto continuava sem ânimo,
sem alegria, gritando mudamente: Amigo, onde está? Preciso de você aqui. Ajuda!
Chegando ao
hoje, não escrevi a carta para o amigo. Escrevo, é verdade, mas não para olhos
terceiros, escrevo para meus próprios olhos. Se o que dizem for verdade e os
olhos forem às janelas da alma, escrevo para que a minha alma seja iluminada
através de meus olhos. Assim como o sol, o astro rei, ilumina esta tarde de
outono. Uma tarde, que sem o sol seria fria. Uma vida, que sem o sol, seria
morta. Uma alma que sem a escrita, seria triste. O pior é ver a bendita escrita
não tornando minha alma mais feliz, como seria o lógico. Torna-a sim cada vez
mais melancólica. Uma alma que geme e chora, e, após gemer e chorar, escreve. Escreve
não para outros lerem, mas para si mesma. Cria-se assim uma iluminada alma
egoisticamente melancólica.
Desta maneira, me despeço da tarde. Farei
daqui em diante não sei o que. Contudo retorno para a vida mais calmo, despreocupado.
Algumas pieguices não valem a pena de ocupar o pensamento. Portanto, vivamos o
hoje. Sejamos amigos de nós mesmos. Iluminemos a vida de que nos ama. Assim como
o sol iluminou a minha tarde.

